Passos Manuel e Garrett Garrett As viagens na Minha Terra: “Veja o Tejo como Garrett o viu”

Almeida Garrett  (Porto,  4/2/1799 —  Lisboa,  9/12/1854) imortalizou esta casa nas “Viagens Na Minha Terra”, quando, em 1843, após convite de seu amigo e correligionário Passos Manuel, que o convidou a deslocar-se a Santarém, descreveu a casa, o jardim e a vista sobre o Tejo e a Lezíria:

“Mas deixar tudo isso, e deixar a igreja da Alcáçova também; entremos nos palácios de D. Afonso Henriques.

Aqui, pegado com o paradeiro rebocado da capela hão-de ser. Por onde se entra?

Por esta portinhola estreita e baixa, rasgada, bem se vê que há poucos anos, no que parece muro de um quintal ou de um pátio.

É com efeito aqui; apeemo-nos.

Recebeu-nos com os braços abertos o nosso bom e sincero amigo, actual possuidor e habitante do régio alcáçar, o Sr. M.P.

Notável combinação do acaso! Que o ilustre e venerando chefe do partido progressista em Portugal, que o homem de mais sinceras convicções democráticas, e que mais sinceramente as combina com o respeito e adesão às formas monárquicas, esse homem, vindo do Minho, do berço da dinastia e da Nação, viesse fixar aqui a sua residência no alcáçar do nosso primeiro rei, conquistado pela sua espada num dos feitos mais insignes daquela era de prodígios!

Entrámos na pequena horta em forma de claustro que une a antiga casa dos reis com a sua capela. Assim foi sem dúvida noutro tempo: a parede oriental da igreja é o muro do quintal de um lado, mas as comunicações foram vedadas provavelmente quando a coroa alienou o palácio e o separou assim perpetuamente do templo.

Plantada de laranjeiras antigas, os muros forrados de limoeiros e parreiras, aquela pequena cerca, apesar dos muitos canteiros e alegretes de alvenaria com que está moirescamente entulhada, é amena e graciosa à vista.

Apresentou-nos o nosso amigo a sua mulher, senhora de porte gentil e grave; beijámos seus lindos filhos, e fomos fazer as abluções indispensáveis depois de tal jornada para nos podermos sentar à mesa.

O palácio de Afonso Henriques está como a sua capela: nem o mais leve, nem o mais apagado vestígio da antiga origem. Sabe-se que é ali pela bem confrontada e inquestionável topografia dos lugares, por mais nada…

E que me importam a mim agora as antiguidades, as ruínas e as demolições, quando eu sinto demolir-me cá por dentro por uma fome exasperada e destruidora, uma fome vandálica insaciável!

Vamos a jantar.

Comemos, conversámos, tomámos chá, tornámos a conversar e tornámos a comer. Vieram visitas, falou-se política, falou-se literatura, falou-se de Santarém, sobretudo das suas ruínas, da sua grandeza antiga, da sua desgraça presente. Enfim, fomo-nos deitar.

Nunca dormi tão regalado sono em minha vida. Acordei no outro dia ao repicar incessante e apressurado dos sinos da Alcáçova. Saltei da cama, fui à janela, e dei com o mais belo, o mais grandioso, e, ao mesmo tempo, mais ameno quadro em que ainda pus os meus olhos.

No fundo de um largo vale aprazível e sereno, está o sossegado leito do Tejo, cuja areia ruiva e resplandecente apenas se cobre de água junto às margens, donde se debruçam verdes e frescos ainda os salgueiros que as ornam e defendem. Dalém do rio, com os pés no pingue nateiro daquelas terras aluviais, os ricos olivedos de Alpiarça e Almeirim; depois a vila de D. Manuel e a sua charneca e as suas vinhas. Daquém a imensa planície dita do Rossio, semeada de casas, de aldeias, de hortas, de grupos de árvores silvestres, de pomares. Mais para a raiz do monte em cujo cimo estou, o pitoresco bairro da Ribeira com as suas casas e as suas igrejas, tão graciosas vistas daqui, a sua cruz de Santa Iria e as memórias romanescas do seu alfageme.

Com os olhos vagando por este quadro imenso e formosíssimo, a imaginação tomava-me asas e fugia pelo vago infinito das regiões ideais. Recordações de todos os tempos, pensamentos de todo o género me afluíam ao espírito, e me tinham como num sonho em que as imagens mais discordantes e disparatadas se sucedem umas às outras”

[in Garrett, Almeida; Viagens na Minha Terra, Cap. XXVIII.]

 

Versão online das Viagens na Minha Terra.

caricaturaCaricatura de João Honório